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São Paulo
Mudar de cidade

Subindo o quinto ou sexto morro, naquele momento eu já havia perdido a conta, finalmente chegamos ao nosso destino. Estar nas alturas, afinal, é a primeira impressão que tivemos ao conhecer o Mocotó! Com mais de 400 opiniões escritas no guia Kekanto e média de 4.4 estrelas, fica fácil dizer que este é o melhor restaurante do Brasil segundo nossos kekanteiros. Um fato realmente incrível não apenas pela conquista em si, mas também se considerarmos que a proposta deste grande tesouro na periferia de São Paulo é oferecer comida sertaneja de qualidade, sem se importar com a onda gourmet que recentemente se espalhou pela cidade como um vírus zumbi.

A quem se deve todo este sucesso? A história do lugar aponta para o chef Rodrigo Oliveira, que transformou o pequeno boteco fundado por seu pai na Vila Medeiros em um restaurante conhecido internacionalmente. Hoje, figurando em 12º lugar na lista do Latin America’s 50 Best Restaurants 2014, o Mocotó é sinônimo de amor pela família e respeito às origens, de caráter e humildade, adjetivos estes tão difíceis de encontrarmos juntos por São Paulo, mas que não faltam nem ao restaurante e muito menos ao próprio Rodrigo.

A fim de conhecer melhor a receita deste sucesso, o guia Kekanto conversou com o chef, que conta mais sobre a trajetória do Mocotó e sua visão pessoal da gastronomia paulistana.

 

KEKANTO: O Mocotó começou com seu pai há 40 anos e desde então se mantém fiel às suas origens. Conte-nos um pouco dessa relação.

RODRIGO OLIVEIRA: Ser filho de um pai sertanejo é ser lembrado todos os dias da sua origem, do que é o valor do trabalho, do não deslumbramento com o sucesso, com as coisas efêmeras, sabe? Para as referências do meu pai, que se criou no sertão e chegou aqui sem nada, lidar com todo essa complexidade que o restaurante se tornou é um tremendo desafio e talvez tenha sido esse o componente principal da gente ter se mantido fiel às nossas origens sertanejas.

 

O que motivou o restaurante a continuar na Vila Medeiros mesmo depois de toda a fama que ele conquistou?

A gente é muito apegado à região, ao nosso contexto. O Esquina Mocotó, nosso novíssimo restaurante, foi um investimento tremendo que provavelmente seria mais barato em outro ponto da cidade, afinal esse prédio estava caindo aos pedaços, mas a nossa primeira providência foi abrir quatro grandes janelas para que quem vier aqui pudesse sentir onde está.

 

Na história do restaurante, você diz que seu pai já te deu muitas broncas. Qual foi a maior bronca que ele te deu?

A bronca histórica e homérica foi justamente quando ele chegou da primeira viagem ao sertão. A gente tinha feito aqui a primeira grande reforma e começamos a moldar o restaurante no que ele é hoje. Eu não esperava que ele fosse parabenizar “ah, puxa que legal”, mas eu achei que pelo resultado, o retorno do público e a felicidade das pessoas que trabalham aqui, ele ia falar: “até que ficou bom”. Mas não, foi uma bronca para me fazer repensar se aqui era meu lugar mesmo.

 

Hoje ele admite que tudo deu certo, no final?

Bom, para mim não (risos).

 

Seu pai continua trabalhando no Mocotó?

Meu pai tem 76 anos e todo dia tá no restaurante. Mas “todo dia” não é modo de dizer “de segunda à sexta”, não! Todos os dias mesmo, de segunda à segunda à segunda. Às vezes ele tá doente, gripado, se sentindo indisposto, e quando a gente diz “pai, vai pra casa, vai descansar um pouco”, ele fala “ah, se eu for pra casa eu vou continuar doente, então eu prefiro estar doente aqui”.

 

Quando você começou a se interessar pelo Mocotó? O que te atraía no restaurante?

Comecei aqui com 13 anos, então você imagina que não era um programa ideal pra um garoto da minha idade passar os finais de semana e todas as tardes e noites limpando o chão, lavando a louça, servindo mesas. Mas eu descobri que o que me atraía não era o serviço em si, mas era o meu pai e a única possibilidade de estar perto dele era estar aqui, porque isso era a vida dele. Então mesmo não sendo a intenção do meu pai, foi ele que me trouxe para esse negócio.

 

Como foi a transformação do Mocotó de boteco para um restaurante de fama internacional?

Foi um processo. Primeiro, foi um período de absorver as coisas, de entender como as coisas funcionavam aqui. Depois, foi entender como isso funcionava no mundo, para além do condado de Vila Medeiros e daí, o terceiro passo, foi traduzir, tudo por pura intuição, como a gente podia trazer um pouco dessas referências pra cá.

 

Você acreditava que o Mocotó se tornaria o sucesso que é hoje?

Não, nem no nosso sonho mais mirabolante a gente podia prever o que aconteceu, mas tampouco aceito dizer que foi ao acaso. Teve um trabalho ferrenho, uma dedicação monumental para o que aconteceu, talento também, com uma missão muito básica e quase ingênua que era todo dia fazer um restaurante melhor.

 

Qual é a sua opinião sobre as diversas tendências gastronômicas que recentemente entraram em alta por São Paulo?

Dizem que São Paulo é uma cidade tendenciosa e modista. Mas dentre as principais tendências eu enxergo uma a qual eu felicito, que é a de restaurantes focados muito mais no essencial do que no acessório. Acho que o momento da cidade é criar lugares finos, de altíssimo valor gastronômico, mas de cardápio essencial, de serviço essencial, de ambiente essencial. O grande lance hoje é: o que você pode tirar de um restaurante, deixar de lado, para que sua mensagem seja a mais limpa, a mais direta, sem disfarce? Acho que a missão da minha geração, inclusive, é justamente mostrar que a mesa paulistana pode ser democrática.

 

Como você percebe a relevância dos clientes expressarem suas opiniões sobre o seu trabalho, como acontece com o Kekanto?

A gente acredita muito que o êxito do restaurante tá justamente nessa relação pessoal direto que cada mês é um troféu a ser conquistado, a gente acredita que a 10ª visita de um cliente é tão importante quanto a 1ª, como vai ser a 100ª e esse tipo de avaliação é um termômetro muito bom sobre como o nosso trabalho tem sido percebido.

 

Fotos: Gabriel Moterani e Sheila Ana Calgaro

Publicado por Gabriel Moterani em 23/3/15
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1 comentário
27/03/2015

A trajetória do Chefe Rodrigo Oliveira, foi coroado de êxito, devido ao amor que ele tem com a comida e aos colaboradores, quase todos familiares. Sua humildade e educação são notados a todo instante, tanto na atenção aos clientes, assim como o respeito que trata seus colaboradores, é raro nas celebridades, já tive oportunidade de presenciar várias vezes.

Ele poderia ganhar muito mais dinheiro, caso abrisse uma casa mais elaborada nos pontos nobres da cidade, mas manter essa firmeza de não ceder a vontade de apenas ganhar dinheiro, é mais uma qualidade do chefe, até abriu uma casa mais descolada ao lado, mas preserva tradição, isso é tão valoroso quanto ético, e não pretende sair da Vila Medeiros, onde nasceu. Até seus funcionários são originários da terra de seu pais. Até dá sua benção àqueles que tem vontade de alçar voos solos, e os orienta a atingir sucesso, como aconteceu com os primos que fundaram a Nação Nordestina e o Barnabé, não lembro se tem uma terceira casa.

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